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segunda-feira, 16 de maio de 2016

O dia em que as portas se fecharam para mim



No fim dos anos 80, os jovens descobriram uma nova febre em Angola: Pedreira! Consistia em viajar (da forma que fosse possível) para a Europa para se candidatarem a uma obra de construção de edifícios, nessa altura, alguns países estavam a entrar na Comunidade Económica Europeia e podia-se ver muitas construções pedindo por jovens africanos desejosos de ganhar algum dinheiro enquanto reconstruíam a sua vida almejando ajudar os seus familiares em África. 

Na altura a forma das viagens era do normal ao bizarro. Ouvimos falar de pessoas que haviam fugido no porão de navios, viajado na parte da carga nos aviões, e até mesmo uns sortudos que haviam conseguido fugir nos aviões que vinham de Portugal para salvar os cidadãos portugueses – por altura dos confrontos que se abateram sobre angola após as eleições. Os olhos de todos os jovens estavam sobre quaisquer meios que os pudessem levar para fora de Angola.

Eu era um desses rapazes. Depois de uma viagem ao Brasil em 1990, a Europa era o passo seguinte. Alguns factores me colocavam entre as pessoas com maiores possibilidades para conseguir emigrar: meus três irmãos mais velhos tinham nacionalidade europeia e poderiam resolver a minha situação enviando uma carta de chamada para o visto de entrada num dos países europeus. Além disso, um tio meu bastante abastado, que pertencia ao exército poderia ajudar-me a pagar as passagens – na verdade ele já tinha feito coisa do género no passado e não lhe custaria muito ajudar-me nisso que passei a acreditar que era o projecto da minha vida. Apesar disso, eu tinha um ponto contra mim: eu sofria de epilepsia.
 
Nos anos 90 esta doença estava ligada a forças espirituais e um grande misticismo a cercavam. O desconhecimento da doença, aliado aos momentos de inconsciência que seguiam a crise, faziam com que eu tivesse de me esconder um pouco – a epilepsia impediu-me de cumprir o serviço militar – mas também era a barreira que impedia o meu sonho de se realizar. Enquanto eu chorava por uma carta de chamada, os meus irmãos faziam os possíveis para que eu não conseguisse viajar. Segundo eles, eu corria o risco de sofrer uma crise no topo de uma das construções e morrer.

Entretanto eu me voltei ao Senhor – e passei a orar pela minha cura e também pela minha viagem – mas, infelizmente aos poucos, o entusiasmo foi diminuindo e crescendo em mim uma certa decepção, pois, segundo eu, como poderia haver um Deus amoroso se, por um lado não me curava, e, por outro, não me deixava viajar? Afinal de contas tudo o que eu queria era apenas ir para a Europa em busca de melhores condições de vida! Como Deus poderia ser bom se não me permitia viajar em busca de uma vida melhor?
Comecei a frequentar lugares em busca de orações. Achava que pessoas mais chegadas a Deus seriam capazes de falar de uma forma que Ele ouvisse e assim me curaria rapidamente. Ainda havia a questão de orar pela viagem. Deus poderia ouvir mais outras pessoas – mais antigas do que eu na fé – e assim, dar um jeito na minha situação. Nada! 

Certo dia, os meus irmãos decidiram abrir o jogo e acabei percebendo que não poderia mais viajar, pelo menos, não se dependesse deles. O medo deles era legitimo e eu não tinha como lutar contra isso. Os meus amigos que haviam viajado para a Europa, prometendo que me me fariam subir mal começassem a trabalhar, esqueceram-se das promessas ou, quem sabe, nunca conseguiriam conciliar as suas promessas com a sua planificação dos seus gastos diários.

Com a porta fechada, e sem saída, corri para a igreja em busca de alguém que me desse uma palavra de conforto. Mesmo em meio a dor, sempre pode haver alguém que nos pode dizer aquelas palavras que afastam dos olhos a névoa causada pelas lágrimas e nos fazem ver novamente o caminho lá a frente. Tudo o que conseguia ver eram portas fechadas: não tinha estudado mais, pensando que a minha viagem estava logo alí, na esquina. Não tinha arranjado emprego, para quê isso? Não seria isso um sinal de pouca fé, criar raízes no vaso enquanto se pensa em crescer num vasto campo?

Então, com as portas fechadas e os irmãos todos ocupados, naquele momento de dificuldade emocional e espiritual decidi orar pedindo uma palavra especial a Deus. Abri aleatoriamente a Bíblia pensando que onde quer que abrisse seria a palavra de consolo ou o encorajamento que vinha directamente de Deus para mim. Respirei fundo, me certifiquei que Deus sabia do assunto e abri. Estava na página entre os capítulos 35 a 37 do livro Profeta Ezequiel. Optei pelo capítulo 37 porque é o capítulo onde tinha os dedos. Era o relato da visão no vale dos ossos secos.

Quando terminei a leitura estava mais animado, Deus havia me mostrado que era poderoso para fazer o que quer que fosse. Já não achava mais que Ele estava distante – ou que não se importasse o suficiente para intervir na minha vida – passei a achar que Ele, sendo tão poderoso, poderia ter outros planos para a minha vida. Pela primeira vez na vida, achei que a minha vida tinha algum valor para Deus.

Chegando a casa comecei a reorganizar a minha vida. Comecei a escrever o roteiro para um filme – pensando que o meu texto seria tão bom que acabaria virando um filme – e decidi voltar aos estudos, pois, na luta de emigrar acabei por abandonar a escola porque a viagem estava “bem perto de acontecer”, já expliquei isso, mas pode ser que as pessoas se tenham esquecido. Tinham-se passado mais 9 anos sem ir a escola para estudar. 

Decidi aceitar a oferta da União Bíblica de Angola (Scripture Union) e me tornei um funcionário dessa organização onde tive acesso a alguns livros tais como “A cruz e o punhal” de David Wilkerson, entre outros. Enquanto lia, começava a também a desenvolver um gosto ímpar pela escrita. Aos poucos também, as pessoas ao meu redor começavam a notar esta inclinação. Mesmo de forma desinformada, comecei a escrever folhetos evangelísticos. Comecei a ler com uma avidez ainda maior.

Mais tarde participei de um seminário para redactores organizado pelo departamento de comunicação da Aliança Evangélica de Angola. Como sempre fui muito atento à língua portuguesa, corrigindo as pessoas que se expressavam mal, tinha os olhos atentos ao sentido das frases, tanto a nível artístico como a nível gramatical. O seminário terminou e logo em seguida fui convidado a participar de um grupo de escritores evangélicos que se uniam aos sábados para troca de experiências. Nesses encontros partilhávamos ideias e corrigíamos os textos para folhetos uns dos outros. Aos poucos ia sendo solicitado para ser o “editor” do grupo.

Alguns livros (muito bons) foram publicados. Com a ajuda de Hans Udo Fuchs, o missionário brasileiro que na altura estava numa organização das editoras brasileiras que ajudavam Angola com literatura, os nossos esforços deram certo e conseguimos fazer com que um dos livros de uma das nossas autoras fosse publicado. Foi um sucesso. Ela, chamada Sónia Gomes, continuou a escrever, ao passo que eu, abandonei a escrita para me dedicar totalmente aos estudos.

Com o meu afastamento o grupo desfez-se. Acredito que por um lado o livro da Sónia foi um encorajamento para todos, mas, por outro gerou uma certa ansiedade nos demais escritores. Quando chegaria a nossa vez? Entretanto, a Sónia Gomes continuou a escrever, publicou mais dois livros, entrou na União dos Escritores Angolanos – uma organização bastante credível em Angola, mas que tem certa conotação política, uma vez que os seus membros são quase todos membros do partido no poder – e conseguiu publicar mais uns tantos livros. 

Quando estava no fim da faculdade voltei aos textos – uns 8 anos depois. Os meus estudos tinham acontecido em condições dramáticas, pois faltava dinheiro para as propinas, para o transporte a até para o material didáctico. Aos escrever o meu livro, pensava em encorajar os jovens a lutarem pelos seus sonhos ainda que não tivessem dinheiro suficiente. Pela minha história acabei achando que eles também poderiam dar-se bem na vida se tão-somente se apoiassem em Deus e tivessem um plano o livro se chamava: Você também pode ter sucesso – sete dicas para você viver a altura dos seus sonhos.

Novamente as dificuldades seguiram o projecto. Alguns dos meus antigos mestres e colegas não leram o manuscrito, o que me deixou desanimado, mas não me derrotou. Depois vieram as dificuldades financeiras. E por fim as dificuldades na distribuição. Alguns dos meus amigos não aceitaram ler o livro. Outros não aceitaram o preço que propus, achavam que eu não tinha condições para escrever um livro sobre sucesso, e, o preço que dei também era muito alto aos seus olhos. Não consegui fazer da distribuição do livro um sucesso. Recebi sugestões para pagar por isso, mas a tentação não me encantou muito, e mesmo que o fizesse, os meus recursos acabaram na chegada do livro a Angola – pois havia sido produzido em Portugal e impresso no Brasil, pela Imprensa da fé.

Embora o livro tenha vendido todas as cópias em algum tempo, mais do que havia planeado, ele fez com que eu conhecesse muitas pessoas que afinal escreviam mas que não sabiam como fazer para que os seus livros chegassem a ser publicados. Alem disso, o meu livro tornou-se um símbolo nacional – foi o primeiro livro de auto-ajuda escrito por um autor angolano – ao qual se seguiram outros livros.

Em 2010 publiquei mais um livro, desta vez tinha sido escrito por mim em autoria com uma jovem. Este livro que retratava a correspondência entre um jovem em recuperação num centro de reabilitação por uso de drogas e uma jovem vencedora do concurso de Miss Luanda, foi mais conhecido, porque tinha muita publicidade.

Depois deste seguiram-se mais dois livros. Os dois foram escritos com dois irmãos meus, um deles mestre de dança na Itália e outro com um atleta olímpico que pratica voleibol de praia em Angola. Voltamos a ganhar alguma notoriedade editorial, enquanto a nível de distribuição ainda enfrentamos alguns problemas. Em 2013, abandonei a empresa na qual trabalhava e, usando o selo que criei para a publicação dos meus livros criamos uma empresa chamada Tchi Criativa. Nesta empresa queremos publicar livros de autores nacionais e internacionais.

Temos um longo caminho pela frente. Alguns livros que recebemos de fora já não oferecem respostas para os desafios que enfrentamos em Angola, a edição e publicação de autores nacionais vai contribuir para que haja uma comunidade evangélica mais forte, mais consciente do seu papel e ainda, mais consciente da sua presença abençoadora neste mundo, a começar por Angola. Todas estas portas, porém, vão se abrindo, aos poucos a partir daquele dia em que as portas que eu queria que se abrissem, infelizmente, se fecharam para mim.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Perdidos na Escuridão

Kambadiamis e Kambadiamas (como diz o kota Paulo Flores)
Acabei de ler m livro bastante sugestivo do Cláudio Kiala, Perdidos na Escuridão, 50 e tal páginas, dá para ler num tiro... O livro é o máximo!
Perfeito, cativante e uma verdadeira obra de arte e se atentarmos ao facto de que o jovem Cláudio tem apenas 18 anos, o livro fica ainda mais sugestivo. Mal peguei no livro consegui o número do autor (há coisas fantásticas, não há? Afinal eu tinha sido colega do irmão mais velho dele) e falamos um pouco sobre o livro, sobre o presente e sobre o futuro.
Sinto-me orgulhoso o suficiente para recomendar o livro a todos os que puderem. Como se sabe, a literatura acontece quando as ideias abandonam o papel e apegam-se às mentes.
Desejo ao escritor as maiores alegrias neste mundo maravilhoso e muitos sucessos. AOs leitores peço: por favor não morram sem ler este puto, o gajo é fantástico. Sei que ele tem a benção do kota Manuel Rui: Comprem o livro dele e ofereçam a pelo menos 5 amigos, assim crescemos todos, assim aprendemos todos.
Fui
PS: Estou a ler o Depois da tempestade, da Rossana da Piedade... Volto com mais dicas.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Ode às letras

Não posso julgar a poesia que ouço
Mas não me esquivo da poesia que sinto
Que me barafunda o interior com palavras que não conheço
Enquanto outros me incentivam a passar por caminhos que desmereço

Não posso julgar as frases cuja origem desconheço
Mas posso julgar-me a mim
Se o caminho com as letras aborreço
Se a caneta que dá cor ao meu sangue adormeço.

Eis que minha paixão
É também, minha condenação
Por pouco e às vezes tanto
Esconder-me da frugalidade de mim, é minha missão
Sine qua non para trazer à luz
As vívidas palavras
Que removem do desespero a negrura
E devolvem à esperança a verdura

Minha vida, meus sonhos, meu horizonte nada mais são
Senão a dor que não posso negar
A alegria que não posso evitar
O pranto que procuro enfeitar,
Enfim, A vida que me faz versejar:
Minhas letras impressas
No coração dos levam os papéis que assinei

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Ivandra Ferreira

A minha parceira no livro Cartas a um viciado (vai ser lançado no dia 7 de Agosto - no Hotel Trópico) já tem um blog. Entrem e dão uma força a ela...Aqui vai o endereço: http://ivandraferreira.blogspot.com/
Falando em livro, estamos a tratar dos detalhes finais do livro. Acabamos de pagar o frete hoje e a ideia é termos o material em Luanda no dia 10 de Julho para avançarmos nos convites e entrevistas, etc.
A Ivandra vai dar muita carga!!! Será o primeiro livro escrito por uma miss em Angola e temos que saudar estas primeiras coisas.
Quem ainda não leu o meu primeiro, pode esperar que no lançamento das cartas vamos tentar ter lá o outro: o primeiro motivacional puramente mwangolé

Estamos juntos ou não? Claro que estamos!
Aquele abraço
Aqueles beijinhos

quinta-feira, 17 de junho de 2010


No ano passado comecei um projecto com a Ivandra Ferreira, uma colega da Universidade Metodista, eleita 2ª Dama de Honor no Miss Ingombota 2009. Ela tinha sido muito tocada pela vida das pessoas que andam nas drogas e decidimos escrever um livro para encorajar os jovens que se drogam a buscarem ajuda e os que pensam começar a ficarem longe delas. O estilo é meio diferente, são cartas, para não cansarem muito o leitor, e algumas delas são muito apaixonantes: incluímos uns textos em prosa poética, e no fim a história é muito emocionante (esperamos).
Tomamos o cuidado de olhar com bons olhos as falhas cometidas no meu primeiro, mas a verdade é que não existem livros sem falhas, o que se deve procurar (e nós procurámos) foi tentar minimizá-las.
Voltando ao texto, queremos contribuir para uma Angola um poucoxinho melhor e com isso, também, por um mundo melhor. O que se espera não são grandes milagres, mas pequenos gestos, gestos quase imperceptíveis, mas que no fim, somados com outros gestos pequenos farão grande diferença. Este é o tempo para lançarmos as sementes da mudança que queremos ver no mundo, o tempo dirá se fizemos bem ou não a nossa parte.
Em meu nome e no da Ivandra peço as vossas orações para que isso seja uma realidade.
Estamos juntos
Deus vos abençoe ricamente
Joel

terça-feira, 8 de junho de 2010

Esquisitices


Estou no Lubango a participar de um seminário para escritores de liçöes bíblicas. Ando acantonado no ISTEL e só saio para almoçar. Vi um amigo apenas, o Angelo Samessele, mas ele teve de vir cá ao sítio. Acordo cedo, mas também durmo muito cedo, säo 20h03 e tenho os olhos cheios de sono. A minha vida está mesmo mudada.
Estou a reflectir na minha vida, se já fiz o essencial ou se ainda falta. Claro que falta. Mas quando penso nisso penso nos livros que sei que deveria escrever, penso no estilo de vida que deveria adoptar para que tais textos deixassem de ser teoria e pulassem para papel, mas também penso na responsabilidade de viver com qualidade; o Isaías Joäo gosta de citar aquele filósofo que (espero näo cometer uma gaffe) dizia "primeiro viver e depois filosofar", e fico paiado.
Caros escritores, a nossa missäo é muito nobre, mas o tempo é muito curto. Temos de deixar algumas partes de fora, temos de deixar de acumular textos na cabeça, a vida é uma neblina, começa agora e puff, acabou. Escrevamos amigos, esgotemos as nossas ideias, façamos os nossos coraçoes reclamarem por sugarmos tudo, enfeitemos as ruas, os blogs, as folhas, os livros com palavras bonitas. As regras säo importantes, desde que näo destruam a beleza das palavras, a dedicaçäo é fundamental, tal como disse André Lima, o professor do seminário que estou a assistir: "o texto escrito sem dedicaçäo será lido sem prazer". Escrevamos amigos e amigas. Falando nisso, ocorreram-me frases enquanto voltava da Tundavala:
"Quero, mais do que os mumuílas desejam aquele leite estranho
descer pelas tuas acentuadas curvas com a mesma responsabilidade que os motoristas descem a Leba
E dizer-te que vi a fonte escondida
Aquela que brota das pedras
e se estatela aí, pra quem quiser morrer"
Mas ainda näo pensei bem nisso para acabar bem. Preciso voltar a minha confusäo para terminar isso. A beleza é encantadora; vivo-a profundamente.
Está tudo muito confuso, mas, escrevam, a vida é mesmo assim.
Forte abraço

terça-feira, 25 de maio de 2010

Artes Vivas


Escrever é um caminho que abre caminhos. Hoje estive no Artes Vivas, no espaço Bahia. Comemorámos mais um aniversário do continente africano; estava lá a malta toda (excepto a que não foi, claro!), pessoal do Artes Vivas, Lev'arte e Prais'Arte. Fantástico!
O encontro começou com música, infelizmente perdi o nome da banda - mas os gajos são bons a sério - depois o anfitrião (Lukeny, que diga-se de passagem, vai lançar um CD no dia 6 de Junho na praça da Cultura) fez um rodízio de bons poemas e alguma spoken word de grande qualidade (valeu Ludmila) e os dois manos do Lev'arte declamaram o meu poema preferido: Ainda... No meu sangue! Outro mundo!!!
Depois entrou a Lueji para fazer uma mesa bicuda, mas como o madié que lá deveria estar não apareceu, apareci eu, e falamos, e trememos, e falamos. Eu olhava para ela em busca de encorajamento, e ela tremia. Ela olhava para mim, eu era como uma cana açoitada pelo vento: Ainda... gotinhas do meu sangue...
Mas falamos. Não precisamos ser perfeitos, vencemos os nossos medos enquanto fomos falando, perseveramos, dominamos a nós mesmos e continuamos a lutar, certos de que o medo não vai embora sem que nos disponhamos a manda-lo embora com os primeiros passos. Valeu Dharma, tens uma alma e tanto! Obrigado malta, obrigado mesmo...
Ainda...
No meu sangue
Já disse e repito: estes movimentos têm muito a dizer... Vocês pensaram e agora está a acontecer;
Todos podemos chegar lá: Tudo começa e se define na mente: Nada mais, nada menos

A força de um sonho


Quando penso em sonhos, penso sobretudo em Moisés o líder gago (e incapaz) trazendo a nação israelita do Egipto, em Martin Luther King dizendo I have a dream; Vejo Jesus Cristo enviando um punhado de pescadores e gente mal encarada (como dizem) para mudar o mundo, para espanto do próprio mundo, já tão habituado a Currículos, Diplomas, etc. etc. e porque não falar dos nossos valorosos heróis do início da luta armada, lutando com catanas, letras e cânticos, em busca da independência de Angola? Sonhar é bom. Tudo começa com um sonho. Alguns dos sonhos, que têm a missão de animar os nossos próprios sonhos, muitas vezes são mal entendidos, e em vez de serem fonte de energia transformam-se em fonte de desânimo, é que nós acabamos olhando mais para as nossas impossibilidades do que para as possibilidades; olhamos mais para a nossa realidade actual do que para a grandeza do que pode sair, e... escondemos os nossos sonhos apegando-nos a uma vida que no fundo sabemos que não é a que gostaríamos de viver.
- Sonho? - nos perguntam as pessoas que também já abandonaram os seus - isso tem algum valor? - e os seus argumentos são mortíferos - no nosso país?
Embora algumas vezes fiquemos sem argumentos para contrapor tais colocações, o mundo está onde está graças aos sonhos dos que sonharam. Bons ou maus sonhos nos deixaram como estamos, quem sabe os nossos sonhos não melhorem o mundo por vir?
Quando eu penso na força de um sonho, penso particularmente no dia em que o profeta Elias (na Bíblia Sagrada) decidiu orar para que houvesse seca e Israel. Depois de algum tempo ele decidiu que já era tempo de voltar a chover. Então decidiu orar por isso. Orou por algum tempo e sempre foi mandando o seu ajudante para ver se algumas nuvens já se haviam formado no céu. Depois de repetir este ritual por mais de seis vezes, o ajudante voltou dizendo que não havia grande coisa no céu, apenas uma simples nuvem do tamanho da mão de um homem. Era apenas isso...
O profeta então disse que naquela mão de um homem vinha uma grande tempestade. Nada mais, nada menos: E quem conhece a vida em Luanda sabe como é que as chuvas são.
Os sonhos têm o mesmo efeito, eles nunca são grandes o suficiente para impressionar, mas os seus efeitos são sempre estrondosos. Na verdade, um sonho, tal como uma semente, não precisa ser grande para que o fruto também seja grande. Um sonho é uma semente no coração do homem/mulher. A nossa responsabilidade é reconhece-lo, aceita-lo e trabalhar na sua vida para realiza-lo. Isso pode levar tempo, não faz mal, desde que o tempo não seja gasto em procrastinação. O sonho tem poder. Creio que quando alguém pergunta a Deus a solução para o nosso mundo em crise Ele aponta para os nossos corações, onde Ele plantou bons sonhos para o bem de todos. Acredite no seu sonho, lute por ele. Não copie os sonhos dos outros, a sua contribuição fará a diferença. Não podemos ser todos como são os outros, na verdade, o mundo só perde quando passamos por cima de nós mesmos para tentarmos ser outras pessoas. A solução para o mundo pode estar guardada no sonho que temos. As nuvens por si não têm muita força, mas quando elas soltam aquelas gotas minúsculas, sabemos que aí vem azar. Que venham as bonanças para mundo, através da realização dos nossos sonhos. Por favor, lute pelos seus sonhos, não os despreze. Junte-se a realizadores de sonhos e força!
Um sonho pode mudar o mundo... e o nosso mundo precisa de bons sonhos, quem sabe, o seu não é um destes?

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Uma história de amor à procura de um final feliz


Ando a tentar recuperar-me do vício de comprar livros, mas enquanto ele não passa vou juntando aqui e acolá algumas peças escritas. Foi o que aconteceu mais uma vez. Na semana passada fiz uma das minhas mais recentes aquisições: foi nem mais, nem menos o livro da Lueji Dharma Um romance à procura de um final feliz. Muito bom livro: uma miúda apaixonada abrindo o seu coração e fazendo-nos sofrer com ele, fazendo-nos viver um romance que não tem nada a ver connosco. A miúda sofre por amor, mas no fim triunfa...
O estilo dela é surpreendentemente agradável, viajamos de um passado para o presente e de repente, o texto migra para um novo presente, mais longíquo, um pouco sofrido. Quando se chega ao fim, a pergunta é: porque que ela fez-me viver com tanta intensidade se já sabia que a história acabava assim?
Vale à pena ler (de preferência antes de se morrer), além do conteúdo ele é bastante instrutivo em termos de estilo e arte. Arte não se imita (acho), pois, quando alguém tenta isso, ela se transforma em ciência, e nem sempre a ciência tem fluidez, contudo, ninguém pode queixar-se de não ter material para ver como é que as coisas na arte acontecem.
Gostei da arte com que ela compôs a narrativa,
Gostei da poesia que pelo que me parece está em todos os textos, há como que, uma "subentendência" da mesma. Um texto altamente. Já falei dele à Sónia Gomes mas ainda não disse nada ao Flávio Gaspar, meus confidentes em termos de romances.
Obrigado Dharma

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Pedido de casamento


Se te casares comigo, meu amor,
Te prometo todas as galinhas do Waku Kungo,
Se apanhar os gajos da Aldeia Nova a dormirem
ainda roubo-lhes leite todas as manhãs, para que te não falte.
Te prometo cabeças de gado roubadas do Cunene,
Sei que há makas por lá, mas ladrão que rouba por amor
Merece compaixão, ou não, meu amor?
Se te casares comigo,
Prometo roubar todas as pedras bonitas das Lundas,
e usa-los como enfeites para o teu umbigo
e colá-los com beijinhos. Muam, muam, muam, muam, até se me gastarem os lábios
Se te casares comigo, prometo roubar petróleo em Cabinda
Para acender os teus candeeiros quando as luzes da minha voz apagarem e precisarmos de vela para eu curtir os teus olhos mais uma vez, ou me matam, ou quê…
Roubaria um carro a cada final de semana, só para tirarmos fotografias em carros de marca,
Conduzir não posso, as cartas que tenho tirei dum baralho: damas, manilhas, ases, reis e jokers, mas estas, a polícia de trânsito não aceita
E escafedi o dinheiro das multas
Se te casares comigo ainda que chova muito em Luanda
Prometo que não se quebrarão as pontes para os teus seios, nem gemidos nos meus ouvidos
E não me fartarei dos teus beijos nem dos teus unguentos
Prometo ser teu fã a cada dia, como se nunca tivesse havido um dia, e como se nunca viesse a haver novo dia.
Não iríamos às compras!
Nada de Roque, nem de Asa,
Nem de Catinton,
Nem daquela praça de nome feio onde as pessoas têm de abaixar – Livra!
nada de compras, só mesmo muito amor para partilhar…
Mas para isso,
Terias apenas de te casar comigo.
Só isso…

Artesãos da esperança


Estive no Prais'arte há pouco mais de dois meses (se a memória não me trai) e no Lev'arte ontem. Além de ter conhecido o pessoal ultra carinhoso dos dois lugares, ainda tive o privilégio de trazer um livro autografado pela Lueji Dharma. A noite foi um sucesso em termos de declamação e trago ainda algumas frases comigo:
- Ainda...
- Mulher...
- Nas ruínas da Babilónia
- O meu sangue...
Gajos porreiros aqueles! Uma noite aproveitada até ao fim.
O que vejo de louvável nestas iniciativas é que acredito que as mudanças vêm de coisas pequenas: um poema, uma música, uma trova, uma palavra carinhosa, um gesto encorajador, enfim, um toque humano.
Louvo os esforços destes tipos. Mesmo que às vezes se sintam desprezados, incompreendidos, ou solitários. Coisas pequenas, são mais fáceis de realizar e também mais fáceis de digerir.
Deus vos abençoe, o caminho é mesmo este